Resposta rápida
A endoscopia digestiva alta permite ver o esôfago, o estômago e o início do intestino por dentro, colher biópsias e, em muitos casos, retirar lesões iniciais sem cirurgia. Quando um câncer de estômago é encontrado ainda na fase inicial, a sobrevida em 5 anos passa de 90%. Ela é indicada por sintomas, por idade ou por condições que aumentam o risco.
1. Por que o diagnóstico precoce muda o desfecho
- O câncer de estômago costuma ser silencioso no início, e os sintomas se confundem com gastrite ou úlcera.
- INCA: 13.830 casos novos por ano entre homens no Brasil em 2026–2028. É o 2º tumor mais incidente entre homens no Norte e o 3º no Nordeste.
- Câncer gástrico precoce = restrito às camadas superficiais da parede do estômago. Nessa fase, a sobrevida média em 5 anos passa de 90%.
- No Japão, com rastreamento endoscópico, 40–60% dos casos são diagnosticados na fase precoce; no Ocidente, só 5–10%.
As barras representam o ponto médio de cada intervalo; os valores completos estão nas etiquetas.
o INCA relata o caso de um paciente de 47 anos, sem sintomas, cujo tumor foi achado numa endoscopia de controle de esofagite.
2. O que a endoscopia vê e o que ela consegue fazer
tubo flexível com câmera, introduzido pela boca sob sedação, que examina esôfago, estômago e duodeno.
Ver a mucosa diretamente, com alta definição e filtros de luz ou corantes (cromoendoscopia)
Colher biópsias de áreas suspeitas
Pesquisar a bactéria H. pylori
Retirar lesões iniciais sem cirurgia (mucosectomia/EMR e dissecção endoscópica/ESD)
99,9%
sobrevida específica da doença em 5 anos após retirada endoscópica completa de lesões com indicação clássica (registro japonês, 12.647 pacientes)
0,3% e 0,4%
precisaram de cirurgia de urgência por sangramento ou perfuração
69% × 37%
sensibilidade da endoscopia contra o raio-X contrastado para detectar câncer gástrico (Coreia)
3. Quando a endoscopia é indicada
no Brasil e no Ocidente, a endoscopia é pedida por sintoma ou risco aumentado, não como rotina para todos.
| Situação | O que dizem as diretrizes |
|---|---|
| Dificuldade para engolir | Investigação urgente em qualquer idade (NICE) |
| Vômito com sangue ou fezes pretas | Endoscopia de urgência, em hospital |
| Má digestão a partir dos 60 anos | Endoscopia para afastar doença orgânica (ACG/CAG 2017) |
| Azia, má digestão ou dor no alto da barriga com perda de peso, 55+ | Endoscopia com urgência (NICE) |
| Anemia por falta de ferro sem causa clara | Endoscopia e colonoscopia (NICE) |
| Refluxo crônico + 3 ou mais fatores de risco para Barrett (homem, 50+, raça branca, tabagismo, obesidade, parente de 1º grau com Barrett ou câncer de esôfago) | Uma endoscopia de rastreamento; se normal, não repetir (ACG 2022) |
| Histórico familiar de câncer gástrico | Endoscopia pode ser oferecida antes dos 60 (ACG/CAG 2017) |
Nota: abaixo dos 60 anos, com má digestão e sem sinais de alarme, a diretriz norte-americana e canadense prefere testar e tratar H. pylori primeiro. No Brasil, onde o câncer gástrico é mais frequente, muitos médicos pedem o exame mais cedo. A decisão é individual.
4. Rastreamento populacional: Coreia, Japão e Brasil
| País | Público | Intervalo | Resultado |
|---|---|---|---|
| Coreia do Sul (desde 1999) | 40+ | A cada 2 anos | 47% menos chance de morrer de câncer gástrico com endoscopia; o raio-X contrastado não reduziu mortes |
| Japão (endoscopia no programa nacional desde 2015–2016) | 50+ | A cada 2–3 anos | ~40% dos cânceres gástricos retirados por via endoscópica |
| Brasil | Sem programa populacional | — | Endoscopia por sintoma, idade ou risco |
Redução da chance de morte em relação a quem nunca fez. Dados observacionais; não há ensaio randomizado de rastreamento gástrico.
E no Brasil?
o INCA projeta 22.530 casos de câncer gástrico por ano em 2026–2028, a maioria em estágio avançado. Um estudo da Universidade de Bolonha atribuiu 77,7% dos casos brasileiros à infecção por H. pylori. Sem rastreamento populacional, a estratégia é identificar grupos de risco e tratar a bactéria.
5. Lesões pré-malignas e vigilância
- Infecção por H. pylori
- Gastrite crônica
- Gastrite atrófica
- Metaplasia intestinal
- Displasia
- Câncer
Tratar o H. pylori cura a gastrite não atrófica, pode fazer a atrofia regredir e reduz o risco de câncer (ESGE, MAPS II 2019). Esôfago de Barrett: troca do revestimento do final do esôfago causada pelo refluxo crônico; é a única lesão precursora conhecida do adenocarcinoma de esôfago e está presente em 5–12% das pessoas com refluxo crônico.
| Condição | Vigilância endoscópica |
|---|---|
| Barrett sem displasia, segmento ≥ 3 cm | A cada 3 anos (ACG 2022) |
| Barrett sem displasia, segmento < 3 cm | A cada 5 anos (ACG 2022) |
| Barrett com displasia | Tratamento endoscópico e depois vigilância |
| Gastrite atrófica ou metaplasia intestinal avançada (antro e corpo) | A cada 3 anos (ESGE MAPS II) |
| O mesmo, com parente de 1º grau com câncer gástrico | A cada 1–2 anos |
| Metaplasia em um só local com histórico familiar, metaplasia incompleta ou H. pylori persistente | Considerar a cada 3 anos |
| Atrofia leve a moderada só no antro | Sem vigilância |
| Gastrite autoimune | Considerar a cada 3–5 anos |
Nota: as diretrizes norte-americanas (AGA) são mais seletivas que as europeias. O intervalo certo depende do laudo da biópsia.
6. Qualidade do exame
uma meta-análise estimou que 11,3% dos cânceres do trato digestivo alto foram diagnosticados até 3 anos depois de uma endoscopia considerada normal.
Sinais de uma endoscopia bem feita
Indicadores da ESGE
- Tempo de exame de pelo menos 7 minutos na primeira endoscopia diagnóstica (quem examina por 7+ minutos acha até 3x mais lesões displásicas e cânceres)
- Fotos de pelo menos 10 pontos anatômicos e de todas as alterações
- No Barrett: 1 minuto de inspeção por cm, cromoendoscopia e biópsias padronizadas
- Laudo com termos padronizados (Los Angeles, Praga, Paris)
- Biópsias bem distribuídas quando há suspeita de atrofia ou metaplasia
Você pode perguntar ao serviço quanto tempo o exame costuma durar e se o laudo vem com fotos.
7. Preparo, sedação e riscos
Antes
jejum de pelo menos 6 h para sólidos e 2 h para líquidos claros (ESGE), ou o que seu serviço orientar; informar remédios (anticoagulantes, antiagregantes, remédios para diabetes); levar acompanhante.
Durante
exame sob sedação.
Depois
não dirigir no mesmo dia. Procurar atendimento se houver dor forte no peito ou na barriga, febre, vômito com sangue, fezes pretas ou falta de ar.
Sinais de urgência · Procure atendimento
Riscos (ASGE)
Eventos cardiopulmonares: de 1 em 170 a 1 em 10.000 exames; até 60% das complicações
Perfuração: de 1 em 2.500 a 1 em 11.000 exames diagnósticos
Sangramento importante: raro no exame diagnóstico; mais comum em procedimentos terapêuticos
Nota: o risco é maior em idosos e em quem tem doença cardíaca ou pulmonar.
8. Preciso de endoscopia?
Pergunta 1 de 3
Você tem vômito com sangue ou fezes pretas agora?
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica. A indicação e o intervalo da endoscopia dependem dos seus sintomas, do seu histórico e do resultado das biópsias.
9. Resumo prático
| Situação | Endoscopia | Repetir |
|---|---|---|
| Vômito com sangue ou fezes pretas | Urgente, no pronto-socorro | Conforme o achado |
| Dificuldade para engolir | Em poucos dias, qualquer idade | Conforme o achado |
| Má digestão a partir dos 60 | Sim | Conforme o achado |
| Má digestão abaixo dos 60, sem alarme | Testar e tratar H. pylori primeiro; endoscopia caso a caso | — |
| Azia ou dor no alto da barriga com perda de peso, 55+ | Sim, com urgência | Conforme o achado |
| Anemia por falta de ferro sem causa | Sim (com colonoscopia) | Conforme o achado |
| Refluxo crônico + 3 fatores de risco para Barrett | Uma endoscopia de rastreamento | Não repetir se normal |
| Barrett sem displasia | Vigilância | 3 anos (≥ 3 cm) ou 5 anos (< 3 cm) |
| Gastrite atrófica ou metaplasia avançada | Vigilância | 3 anos (1–2 anos com histórico familiar) |
| Histórico familiar de câncer gástrico | Discutir endoscopia mais cedo | Individual |
Fontes
- INCA — Rede Câncer nº 61 (2026)
- Afya — H. pylori e câncer gástrico no Brasil (2026)
- Costamagna & Cesaro — Early gastric cancer (2012)
- JGCA — Registro de ressecção endoscópica (Gastric Cancer, 2017)
- IARC — Rastreamento gástrico na Coreia
- I. J. Choi — Endoscopic screening in Korea (JDDW 2016)
- Fujishiro — Endoscopy for early gastric cancer (Cancers, 2024)
- BMC Medicine — Rastreamento no Japão (2020)
- ACG/CAG — Management of Dyspepsia (2017)
- NICE — NG12
- ACG — Barrett's Esophagus (2022)
- ESGE — MAPS II (2019)
- NEJM Journal Watch — Resumo MAPS II
- ESGE — Performance measures
- Endoscopy International Open (2025)
- World Gastroenterology Organisation — Quality in upper GI endoscopy
- ASGE — Adverse events of upper GI endoscopy
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica. A indicação e o intervalo da endoscopia dependem dos seus sintomas, do seu histórico e do resultado das biópsias.